
Geraldo Maciel 'Barreto''
Lembro: o acaso era um por-do-sol derramado, um minguante despejar de luzes que caminhava para o lusco-fusco, hora em que a luz divide sua soberaniacom o escuro, a noite se amalgama com o dia, momento em que um homem triste, de semblante fusco , eu, com meu unico olho, procurava por ela, a soberana de minha tristeza.
Eu, um João qualquer, ela uma Maria única, pelo menos para mim. Esse João, tentando como a luz, inutilmente sustentar o clarão dos olhos~dela sobre sua vida; ela , como a noite, soberana, querendo cobrir esse João, seu reino e seu domínio, com o manto da escuridão que leva ao esquecimento.
Ela dizia: João, escute. O amor é como o dia: quado chega a noite, ele murcha, morre, se recolhe, desaparec; assim acontece agora com nós dois,. Nada pode deter essa avalancha que nos cobre. Amanhã o sol, um outro sol. Nada impede que ele volte, que apague a escuridão, que volte a aquecer o mundo e os entes.
Eu respondia? Maria, ouça. Se você quiser, a noite não chega, o dia vai durar para sempre, jamais haverá o acaso, e eu não me perderei nos caminhos que as noites são invísiveis.
Você quer o impossivel, João. Congelar o amor é como congelar o tempo; é como parar o sol, apagar a noite, dar um fim à eternidade. Impossível, João.
Não, não é impossivel. Diga sim, diga que me quer, diga que me ama, diga pare sol, diga morra noite, e você estabelecerá a eternidadde. Diga! Ordene! Os deuses a ouvirão, a natureza lhe obedecerá, o cosmo cumprirá sua sentença!
João, isto é para os deuses, e até para eles pode ser uma impossibilidade. Aceite a nossa humilde condição, a nossa fragil consistência; os limites de nossa carne e do nosso coração! A vida é assim, nosa vida é assimdeterminada. Do pó ao pó, da aurora ao acaso. Principio e fim.
Assim foi. Vi-menum deserto a perseguir horizontes que estão sempre longe; afogeui-me numa noite tão longaque parecia aterna; mergulhei num silencio tão profundo que me pensei surdo. Mas sobrevivi. Consegui manter o nariz acima das marolas do diluvio. Vislumbrei pálidos reflexos ao longe, como relâmpagos no infinito; chegeui a borda do deserto, à fronteira entre a esterilidade e o úbere, entre o ocre e o verde, ao loval onde o horizonte é alcançável.
Hoje Maria é uma lembrança em baixo relevo, um palimpsesto que se esfarela ao contato, um vacuoaonde um dia existiu a dor. Sobrevivi. E lembro ainda, e talvez essa seja a última lembrança, quando ela naquele dia me disse: O amor é como o sol, nada impede que ele volte...
Eu espero. Sobrevivi e espero aqui neste limbo, imerso neste inquietante espera do albor, aguardando a luz, procurando a aurora como um girassol demente, esperando que aquilo que ela disse um dia seja verdade. Que volte o sol, que volte a luz, que volte alguma coisa, mesmo infinitamente pequeno, lembre aquilo que por ela senti um dia.
Espero e desejo esse futuro como se isso fosse a única coisa a fazer na vida, mesmo sabendo que daqui a pouco, ele, como o sol, vai caminhar para a queda, para seu ninho de escuridão e eu tenha que mergulhar novamente no acaso.





